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Darwin, Wallace e o Brasil
A TEORIA DA SELEÇÃO NATURAL DE DARWIN E WALLACE FAZ 150 ANOS! E O QUE ISTO TEM A VER COM O BRASIL?
Jornal da Ciência, Ano XXII, n. 625, p. 6, 11 de Julho de 2008.
A verdade nasce no mundo somente em meio a resistências e provações; cada nova verdade é sempre recebida como indesejada. Esperar que o mundo receba uma nova verdade, ou mesmo uma verdade já antiga, sem questioná-la é buscar por um daqueles milagres que jamais ocorrem. [Alfred Wallace]
Fotografia de Alfred Wallace, aproximadamente em 1860 |
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No dia 1 de julho de 1858, uma sessão na Linnean Society, em Londres, deu partida a uma mudança radical em nossa visão de mundo. O impacto imediato do anúncio da nova teoria sobre a origem de plantas e animais foi modesto. Mas era o epicentro de um terremoto que, no ano seguinte, com a publicação da Origem das Espécies por meio da Seleção Natural de Darwin, atingiria não só as bases da biologia e da ciência em geral, mas também nossas concepções mais profundas sobre a vida e suas formas e sobre a origem do homem. Curiosamente a hipótese central desta teoria foi desenvolvida, de forma independente, dentro do contexto da ciência britânica, por dois cientistas: Charles Darwin e Alfred Wallace.
Embora
influenciados pelas obras de Thomas Malthus e Charles
Lyell, tinham experiências, formações e origens
sociais diferentes. Em comum, quando jovens, uma passagem longa pelos trópicos.
Darwin, com 45 anos, cientista reservado e já amplamente conhecido, aristocrata
e rico o suficiente para dedicar-se inteiramente a seus estudos e experimentos
Voltemos à Linnean Society. Foi lido ali um artigo de 18 páginas contendo: uma introdução, por Lyell e Joseph Hooker; um excerto de um manuscrito não publicado de Darwin; um trecho de uma carta sua, de 1857, para Asa Gray; e o manuscrito de Wallace “Sobre a tendência de variedades a se afastarem indefinidamente do tipo original”. A introdução afirmava: “Os artigos anexos [...] contêm os resultados das pesquisas de dois infatigáveis naturalistas, Sr. Charles Darwin e Sr. Alfred Wallace. Estes senhores, tendo ambos concebido de maneira independente e sem conhecimento mútuo a mesma e muito engenhosa teoria para explicar o aparecimento e a perpetuação de variedades e formas específicas em nosso planeta, podem reclamar com justiça o mérito de ser os pensadores originais desta importante linha de investigação...”
Semanas antes, um Darwin assustado com a possibilidade de perder sua primazia em uma teoria que vinha perseguindo há anos, havia recebido uma carta de Wallace com um manuscrito, escrito em uma ilha distante, pouco depois de um intenso surto de febre. Darwin registraria: “Este ensaio continha exatamente a mesma teoria que o meu. [...] era admiravelmente formulado e muito claro.” Informados sobre seu dilema, seus amigos Lyell e Hooker, organizaram rapidamente a apresentação conjunta dos trabalhos. Muitas controvérsias têm surgido sobre este episódio e sobre os limites e aspectos éticos envolvidos. Mais do que discutir isto ou as razões que fizeram com que quase todo o mérito seja hoje injustamente atribuído quase exclusivamente a Darwin, nos importa mencionar alguns aspectos que têm sido pouco lembrados.
Na ciência não são incomuns as descobertas e invenções múltiplas; exemplos como o cálculo, a seleção natural, a transmissão eletromagnética sem fio e o conceito de energia comprovam essa possibilidade. Isto parece surpreendente porque freqüentemente se desconhece o caráter cumulativo, altamente interativo da ciência, bem como sua natureza social e a influência do contexto tecnológico e cultural subjacente. No caso de Darwin e Wallace trata-se de um exemplo particularmente singular de co-autoria de uma teoria que envolvia uma mudança radical de paradigma porque nunca houve qualquer rusga pública entre eles, ao contrário da disputa entre Newton e Leibniz, por exemplo. Wallace fez mesmo o papel de anti-marketing pessoal ao destacar sempre que a contribuição de Darwin teria sido muito mais importante do que a sua. O exemplo de amizade e de respeito mútuo entre os dois, ao longo de toda a vida, deve merecer uma referência especial, inclusive por sua raridade nos meios científicos em situações similares.
Outro aspecto
se refere ao que eles aprenderam e experimentaram em suas passagens pelos
trópicos, em particular no Brasil As contribuições das culturas nativas de
regiões distantes da Europa para o conhecimento científico adquirido,
construído ou criado pelos naturalistas têm sido quase sempre desconsideradas
pelos historiadores da ciência. Darwin, durante a viagem do Beagle,
em 1832, ficou 5 meses no Brasil, quatro deles
residindo em Botafogo e explorando o entorno do Rio de Janeiro. Wallace
permaneceu de
Darwin, empolgado com as maravilhas da natureza tropical, em Salvador e no Rio, registrou: “O deleite que se experimenta em momentos como esse confunde a mente; (…) deleite é, no entanto, um termo fraco para tais transportes de prazer…” Para ele: “A viagem do Beagle foi sem dúvida o acontecimento mais importante de minha vida e determinou toda a minha carreira. [...] Nessa viagem tive a primeira formação ou educação verdadeira de minha mente. [...] As maravilhas das vegetações dos trópicos erguem-se hoje em minha lembrança de maneira mais vivida do que qualquer outra coisa.” A primeira frase de A Origem das Espécies confirma: “Quando eu estava a bordo do H.M.S. 'Beagle,' como naturalista, fiquei muito impressionado com certos fatos na distribuição dos habitantes da América do Sul e com as relações geológicas dos habitantes presentes com os do passado naquele continente. Estes fatos, me parecia, poderiam lançar alguma luz sobre a origem das espécies – aquele mistério dos mistérios, como foi chamado por um de nossos maiores filósofos.”
Já as observações de Wallace no Brasil constituíram a senda inicial que o levaram à mesma teoria: “As três coisas que mais me impressionaram na Amazônia: A primeira foi a floresta virgem, imensa em todo canto, freqüentemente linda e mesmo sublime; [a segunda foi] a maravilhosa variedade e a rara beleza das borboletas e dos pássaros. Mesmo agora eu não posso relembrá-los sem um arrepio de admiração e espanto; a terceira e mais inesperada sensação de surpresa foi meu primeiro e vívido encontro com o homem em seus estado natural – com selvagens absolutamente não contaminados!” Decorrente de seu período na Amazônia, escreveu dois livros, dez artigos científicos e fez um belíssimo mapa sobre o Rio Negro. O conhecimento dos índios e dos caçadores nativos foi usado amplamente para fundamentar suas observações precursoras sobre a origem das espécies e seus estudos biogeográficos. No seu trabalho sobre os macacos, no qual introduz a hipótese das ‘barreiras fluviais’, afirma: “Durante minha estada na região amazônica, aproveitei cada oportunidade para determinar os limites de algumas espécies, e logo descobri que o Amazonas, o Rio Negro e o Madeira formam limites, além dos quais certas espécies nunca passam. Os caçadores nativos estão perfeitamente a par deste fato,... [...] o mesmo fenômeno ocorre também com insetos e pássaros, como observei em muitos momentos.” O naufrágio do navio no qual retornava à Europa, em 1852, que fez com que perdesse todo o material que recolhera durante dois anos no Alto Rio Negro, com exceções de alguns desenhos de peixes e palmeiras, não esmoreceu o seu ânimo e ele partiu, pouco depois, para uma jornada de 8 anos na Indonésia.
Em 2008 e 2009 vários eventos ocorrerão no Brasil em comemoração estes acontecimentos históricos de 150 anos atrás. Estão sendo programados: encontros científicos (Salvador, Manaus, Rio...); exposições sobre a evolução por seleção natural, Darwin, Wallace, Fritz Müller etc; publicação de livros de/sobre Darwin e Wallace; números especiais de revistas; reportagens em jornais e TVs; atividades nas escolas etc. Será importante criar um movimento intenso, em particular para discutir e influenciar o ensino deste tema na educação básica, com o envolvimento de universidades e instituições de pesquisa, secretarias, agências de fomento, entidades científicas etc. Em função das comemorações mencionadas, a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia de 2008, que ocorrerá entre 20 e 26 de outubro, terá como tema principal Evolução e Diversidade. Os profissionais da C&T, cientistas, professores, estudantes e todos os interessados estão convidados a participarem e a se integrarem em suas atividades e em outros eventos relativos à seleção natural. Um tema que, embora tenha empolgado pouco os cientistas presentes à sessão de 1 de julho de 1858 na Linnean Society, tem importância enorme na ciência e na cultura contemporâneas.
Ildeu de Castro Moreira
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Pode-se
fazer download dos trabalhos de Darwin e
Wallace de 1858,
http://www.linnean.org/index.php?id=380
http://www.linnean.org/fileadmin/images/History/Darwin-Wallace_Papers_Full.pdf
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Ano
de Darwin, 2009
http://www.ano-darwin-2009.org